A Esteira Hedônica, porque felicidade não muda (e como muda-la)

Hedonismo é a filosofia de vida de botar prazer e conforto como objetivo principal na vida (diferente de, por exemplo, a filosofia estoica que roda em volta de ética pessoal auto melhoramento e aceitação do que não se pode mudar)
E esteira (de exercício) no sentido de que quem corre vai ser sempre jogado pra trás, ao lugar onde estava antes, não importa o quão rápido correu nos últimos instantes, não tem como “ganhar” da esteira, não tem como atingir um objetivo.

Juntando esses dois conceitos, a esteira hedônica é a tendência de nós humanos sempre voltarmos ao mesmo nível de felicidade básico, não importa o quanto nos invistamos na nossa própria felicidade ou o quanto a vida tente nos deixar triste, vai funcionar, por um tempo a vida fica mais feliz (ou mais triste), mas inevitavelmente a esteira te joga ao nível de felicidade básico.
Uma pessoa compra um celular, um que estava querendo e economizando por meses, depois de comprar, seu nível de felicidade aumenta, só não por muito tempo, depois de se acostumar, seu nível de felicidade baixa ao nível que estava antes de tê-lo. O mesmo vale para o contrário, uma pessoa que por motivos econômicos teve que se mudar a uma casa extremamente pequena, sofre no começo, mas depois de se acostumar, seu nível de felicidade vai voltar ao que era na casa maior.

Esse conceito data mais de um século atrás, do livro “A anatomia da melancolia” de 1621 escrito por Robert Burton:

O desejo não descansa, é em si, infinito, interminável, pode ser chamado de tormento perpetuo, o moinho que não para

Normalmente essa ideia é trazida como, de certa maneira, anticonsumista, “não compre esse Ipad, você sabe que o seu nível de felicidade não vai mudar por causa dele”, em outras palavras esse produto não te trará felicidade, esses gurus da auto ajuda querem mostrar o caminho pra que você consiga aumentar o seu nível de felicidade básico, o nível que você retorna depois de cada prazer (da mesma forma que é possível aumentar o seu nível básico um estilo de vida nocivo pode diminui-lo, vícios por exemplo podem fazer com que você só atinja seu nível básico com o vício, seja cigarro álcool ou jogo), e essa educação por partes dos gurus e coaches é tanto nobre quanto eficaz, mas o que quero discutir é uma coisa que não permeia muita a conversa, a esteira hedônica tem furos.

Não é difícil ouvir alguém dizer que que em uma época especifica de sua vida ela estava mais feliz, seja os anos que ela morou na Itália ou na juventude quando ela estava perseguido a carreira dos sonhos, o que de certa maneira contradiz a noção de que sempre voltamos ao mesmo nível de felicidade básica, afinal de contas se uma mudança torna sua vida permanentemente mais feliz a esteira hedônica esta errada. Então, para explorar esse conceito temos que descobrir que mudanças podem fazer uma pessoa permanentemente mudar o seu nível de felicidade e porque especificamente algumas mudanças (ou ate mesmo aquisições) podem tornar a vida mais feliz.

A esteira hedônica nao tem tempo determinado, um choque de sofrimento maior demora mais pra retornar ao nível de felicidade básico, então pode se dizer que a mudança de humor que aparenta ser permanente simplesmente vem em função de que não foi dado tempo suficiente pra voltar, atacar o conceito da esteira, não tem mérito, a ideia não está tentando se passar por uma verdade absoluta, simplesmente uma visão de mundo que carrega com si uma vida mais feliz, mesmo assim acho que é valido levantar criticas e apontar os limites dessa visão de mundo.

Vamos voltar aquela pessoa do começo, ela queria muito um celular especifico, depois de vários meses economizando conseguiu compra-lo, nas primeiras semanas ele aprecia o jeito que a tela se curva nas bordas, a velocidade que tudo acontece comparada ao seu celular antigo mas com o tempo isso parou de se tornar uma fonte de prazer e com mais tempo ainda, isso deixou de ser percebido, e dessa forma ele retorna ao nível básico de felicidade, e começa a desejar o novo modelo.
Agora vou propor uma nova situação, ao invés de um celular, estamos falando de um trabalho, nosso personagem esta desempregado por meses, seu desemprego é uma fonte de constante de estresse, ele não consegue dormir e a cada rara entrevista que é marcada, suas palavras saem gaguejadas, e suas ideias sem clareza, tudo porque ele estava nervoso estressado e com falta de sono. A esteira suporia que eventualmente ele ia se acostumar com essa situação, mesmo sem dinheiro e com estresse, ele deveria voltar ao nível de felicidade básico, mas vamos supor que simplesmente não houve tempo suficiente pra essa mudança acontecer.
Eventualmente ele sim consegue um emprego, o que você acha que vai acontecer?

Sua vida já vai ser mais feliz, simplesmente pelo fato de que ele não tem mais um estresse opressor em sua cabeça sempre.
Remover um fator ativamente estressante pode aumentar o seu nível de felicidade permanentemente. Viver com inflamação cronica , por exemplo, pode provocar depressão, a pessoa nunca vai se adaptar a um estresse (nesse caso literalmente um sofrimento físico) porque esse é um estresse opressor ativamente atacando-a.
Depois disso provavelmente a fase de “lua de mel” que o individuo vai ter com o seu trabalho dura mais, por dois motivos, o primeiro é a lembrança constante de que esse trabalho significa que o estresse de estar desempregado não existe.
Nosso personagem, enquanto desempregado não tinha hora pra acordar, na maioria dos casos, essa liberdade é considerada agradável, porem, isso não era uma fonte de prazer, ao acordar, digamos ao meio dia, o fato de ser meio dia se tornava uma lembrança do estresse de ser desempregado, o relógio ao meio dia, se tornava um “gancho”

Acordei meio dia logo estou desempregado, isso me deixa triste

da mesma maneira atividades consideradas desprazerosas ganhavam um novo significado por estarem associadas a renda estável

Acordei cedo logo estou empregado, isso me deixa feliz

o trabalho em si, não é uma fonte de prazer mas estando associado a renda estável, e a remoção de um estresse, se torna uma fonte de prazer.

Esse foi o caso de um estressor ativo, sera que existem prazeres ativos?
provavelmente, vamos aos dois exemplos citados la em cima.

Ana se mudou para a Italia, ficou la cinco anos e depois voltou ao Brasil. Ela lembra esses cinco anos como os mais felizes de sua vida, todo mundo que visitou ela nesses período dizia “a Ana nem parece a mesma, ela ta sempre alto astral” então vamos analisar porque a felicidade de se mudar afetou o novel de felicidade básico dela.

1. Gancho
assim como nosso personagem que conseguiu emprego tinha “acordar tarde” como uma lembrança (ou gancho) de que ele esta desempregado, Ana esta cercada de ganchos de que ela vive na Italia, afinal de contas sempre quetenta falar ela tem que se lembrar que o idioma que tem que sair da sua boca é Italiano, e isso, não importa quanto tempo ela tente, vai continuar acontecendo, sua lingua primaria ainda vai ser o Português, seu Italiano pode estar fluente mas a lingua materna não vai ser substituída. As ruas a arquitetura, comida tudo vai começar sendo gancho e eventualmente vai virar costume, mas não a lingua.

2. Estresse opressor
mesmo que ela gostasse do Brasil talvez a Italia tirasse de sua cabeça alguns estresses que o Brasil trazia, seja preocupação com sua segurança ou estabilidade financeira, coisas que traziam estresse constante a Ana mas que eram tao naturais que ela nunca percebeu o quanto faziam mal. A remoção desse estresse naturalmente eleva sua felicidade básica. A Italia também tem seus estresses, mas para Ana talvez eles não incomodem tanto

3. Prazer ativo
Assim como uma dor de cabeça constante diminui sua felicidade uma sensação de prazer a toda hora faz o contrario. Ana adora as pessoas da Italia, a calma, o jeito que elas falam cantando e a honestidade. toda vez que alguém puxa assunto com ela sente um pouco de prazer. isso sendo constante aumenta o nível de felicidade básico. A verdade é que nesse caso o nível básico continua o mesmo, mas como sua felicidade esta constantemente recebendo petelecos pra cima, é funcionalmente como se fosse o nível básico.

Mais um exemplo, o jovem que esta perseguindo sua carreira
Lucas tem 19 anos e quer ser escritor. todos os dias ele acorda e passa o dia digitando ou lendo, esse dia pra maioria das pessoas seria desagradável, mas Lucas sente um senso de objetivo enorme, a cada tecla que ele digita ele tem em sua mente o objetivo, se tornar um autor de sucesso, ele visualiza e isso o carrega para frente, ele esta feliz porque esta investido em uma atividade, o gancho dele é seu próprio pensamento, cada conversa que ele tem se torna inspiração, cada briga ou tristeza também, tudo se torna inspiração, sua cabeça nem tem tempo de se estressar, ela esta muito ocupada pensando qual vai ser seu próximo livro. A medida que ele se aproxima (ou se afasta) do seu sonho, essa garra constante se torna menos necessária, tanto porque o mais difícil é começar a carreira, tanto porque ele já se tornou um autor experiente, e observar tudo com o olho critico se torna natural, ele não precisa mais ocupar tanto da mente dele com isso, dando espaço pra outras emoções, possivelmente diminuindo seu nível básico. Eventualmente ele se atira em outra atividade, digamos tocar algum instrumento musical, sua cabeça se atira a mesma nisso, ele pode estar presente mas em sua cabeça ele esta treinando, escrevendo musicas, isso volta a aumentar seu nível básico.

Um Biólogo que gosta de escrever